Djaimilia Pereira de Almeida no Enem: A Mestiçagem não é Harmonia, é um Desafio


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Djaimilia Pereira de Almeida no Enem: A Mestiçagem não é Harmonia, é um Desafio

No imaginário brasileiro, a mestiçagem é frequentemente celebrada como a prova de uma suposta harmonia/democracia racial. Uma nação miscigenada, onde o convívio pacífico entre diferentes etnias teria apagado o preconceito. Mas para a escritora Djaimilia Pereira de Almeida, a realidade é outra. Em sua obra "Esse Cabelo", ela desconstrói essa narrativa e nos convida a caminhar sobre um terreno instável, escorregadio e melancólico.

A autora portuguesa de origem angolana usa sua escrita fragmentária e poética para mergulhar na biografia do cabelo, que é também a biografia de um corpo mestiço, de uma história colonial e de um mito que, na prática, falha.

A Metáfora das Rochas Lodosas: Uma Identidade sem chão

Djaimilia nos apresenta a metáfora das "rochas lodosas" para descrever a experiência de ser mestiça. A rocha, que normalmente simboliza solidez e segurança, é aqui um terreno traiçoeiro. É como caminhar sobre algo que não oferece sustentação, que falha a cada passo.

Essa imagem reflete a sensação de não-pertencimento e de constante autovigilância de quem vive em um espaço onde a afirmação da identidade é frágil e incerta. A narradora, com seu cabelo crespo, está inserida em um mundo que tenta encaixá-la em caixas que não a definem, e essa experiência é cheia de rupturas e silêncios.

A metáfora é uma crítica direta ao ideal do lusotropicalismo, que propagava a ideia de um império português tolerante e miscigenado. Na escrita de Djaimilia, a mestiçagem é o reverso disso: não é um símbolo de conciliação, mas de exclusão, precariedade e, por vezes, de vergonha.

A "Mulata das Pedras": Desconstruindo o Estereótipo

Se o imaginário colonial e a cultura popular brasileira costumam retratar a "mulata" como um símbolo de sensualidade e exotismo, Djaimilia Pereira de Almeida propõe uma nova visão: a "mulata das pedras".

Essa imagem evoca uma mestiçagem marcada pela fragilidade, muito distante da idealização sensualizada. A "mulata das pedras" é uma figura que carrega o peso da história, da exclusão e de uma identidade que não encontra lugar para se assentar.

O cabelo da narradora, que é o fio condutor da obra, é o símbolo de tudo isso. Ele é o corpo que carrega a história da diáspora, da violência colonial e do silêncio. A luta para entendê-lo e para amá-lo é, na verdade, uma luta para entender e amar a si mesma, longe dos mitos e das idealizações.

A obra "Esse Cabelo" é um convite a uma leitura mais honesta sobre a nossa história e a nossa identidade. Ela nos lembra que o Brasil, embora miscigenado, ainda não é um lugar onde a "mulata" pode pisar em um chão seguro. O solo é lodoso, as rochas escorregadias, e a caminhada, embora real, ainda é cheia de desafios.

Como usar a obra "Esse Cabelo" de Djaimilia Pereira de Almeida na redação do ENEM

Usar a obra "Esse Cabelo" de Djaimilia Pereira de Almeida na redação do ENEM é uma excelente estratégia. Ela é um repertório sociocultural de alto nível, que se conecta com temas de identidade, racismo, mestiçagem e colonialismo.

O segredo, como sempre, é ir além da simples citação e usar os conceitos da obra para aprofundar a sua argumentação. A obra não é apenas uma história; ela é uma ferramenta de análise social.

Vamos ver como você pode usar a obra como argumento em diferentes temas.

1. Em temas sobre a mestiçagem e a identidade brasileira

A obra é perfeita para discutir a complexidade da mestiçagem, que é vista de forma idealizada no Brasil, mas que na prática esconde desigualdades.

  • Tema: "Os desafios para a construção da identidade brasileira no século XXI".

  • Como usar: Você pode usar a obra para criticar o mito da mestiçagem harmoniosa. A autora, ao usar a metáfora das "rochas lodosas", mostra que a experiência de ser mestiço não é um "chão seguro", mas um terreno de não-pertencimento e de constante vigilância. Isso contraria a visão idealizada e mostra que a identidade brasileira é marcada por rupturas e exclusões.

2. Em temas sobre racismo e estereótipos

A obra também pode ser usada para discutir como o racismo afeta a identidade e como os estereótipos são construções sociais.

  • Tema: "A persistência do preconceito e da discriminação na sociedade brasileira".

  • Como usar: Você pode usar o conceito de "mulata das pedras". Argumente que, ao contrário do estereótipo da "mulata" sensualizada e exótica, a mestiçagem carrega o peso da exclusão, precariedade e, por vezes, de vergonha. A obra mostra que o preconceito não é apenas sobre cor da pele, mas sobre a negação de uma identidade que não se encaixa nos padrões e mitos coloniais.

3. Em temas sobre o corpo e a beleza

O cabelo é o elemento central da obra. Você pode usar a obra para falar sobre como o corpo, e em particular o cabelo, se torna um campo de disputa e de afirmação de identidade.

  • Tema: "A questão da busca por padrões estéticos inatingíveis na sociedade".

  • Como usar: Argumente que a busca por padrões de beleza eurocêntricos é uma herança colonial. A autora, ao construir a "biografia do cabelo", mostra que a luta para aceitar o cabelo crespo é, na verdade, uma luta para aceitar a própria identidade. O corpo mestiço e negro ainda é submetido a padrões que o inferiorizam, o que mostra que a questão da beleza é, no fundo, uma questão política.

Exemplo de parágrafo para a redação

Aqui está um exemplo de como você pode integrar a obra em um parágrafo.

"A idealização da mestiçagem, muitas vezes vista como uma solução para o racismo no Brasil, é desconstruída na obra Esse Cabelo, de Djaimilia Pereira de Almeida. A autora usa a metáfora das rochas lodosas para ilustrar a fragilidade da identidade mestiça, que, ao contrário do que se prega, é um terreno escorregadio de não-pertencimento. Essa visão vai contra o mito da harmonia/democracia racial e mostra que a invisibilidade e o preconceito são desafios reais que afetam a vida de milhões de brasileiros, que não se encaixam nas caixas do imaginário popular."

Ao usar a obra, você demonstra um repertório analítico e crítico, capaz de ir além do óbvio.

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