A identidade racial no Brasil é uma das discussões mais complexas e importantes do nosso tempo. Mas o que significa, de fato, ser "pardo" nesse país? Longe de ser uma simples mistura de etnias, essa categoria esconde camadas profundas de privilégios, racismo e uma constante negociação de quem se é em uma sociedade marcada pela escravidão.
Recentemente, o debate sobre a "parditude" ganhou novos contornos, gerando discussões acaloradas que você precisa dominar para ir além do senso comum.
A Origem da Categoria Parda: Mais que Biologia, uma Construção Social
Historicamente, a categoria "pardo" surgiu para classificar a população miscigenada brasileira. No entanto, ela se torna um problema quando ignoramos a forma como a sociedade nos lê. No Brasil, a raça não é definida pela nossa genealogia completa, mas pelo nosso fenótipo – ou seja, pela nossa aparência.
O artigo da Folha de S. Paulo ("Noção de parditude é equivocada e representa regressão no debate racial do país") aponta que a ideia de "parditude" como uma categoria neutra pode ser perigosa. Pessoas com traços negros são, na prática social, tratadas como negras, independentemente de seus ancestrais. E essa leitura do corpo acarreta um conjunto de desvantagens e preconceitos que o rótulo "pardo" não apaga.
"Discutir a categoria pardo no Brasil se tornou inescapável. Ela está presente nos registros estatais, nas políticas públicas, nas dinâmicas institucionais e, sobretudo, nas disputas simbólicas e identitárias que estruturam as relações raciais no país.
Ignorá-la ou tratá-la como categoria residual nos distancia das tensões vividas cotidianamente por milhares de pessoas que se reconhecem ou são socialmente identificadas como pardas. Não há mais tempo para negligenciar esse debate.
Quando o julgamento se volta contra aqueles que não têm a pele escura como forma de deslegitimar sua negritude, o que se faz, inadvertidamente, é alimentar a cisão que tanto se pretende evitar. É usar as armas do colonizador contra a própria população negra.
É precisamente por isso que a proposta de criação de uma nova categoria racial, como a chamada parditude, deve ser recusada com clareza e firmeza. A ideia de instituir uma categoria racial distinta da categoria negro representa uma inflexão profundamente perigosa no campo das lutas antirracistas. Ainda que apresentada sob o pretexto de dar visibilidade a uma experiência de ambiguidade, a parditude opera, na prática, uma cisão política artificial e funcional aos interesses da branquitude."
Pardo e o Racismo por Denegação
A intelectual Lélia Gonzalez chamou de racismo por denegação o que muitos conhecem como o mito da democracia racial. A ideia de que "somos todos mestiços" ou "não há racismo porque somos todos pardos" serve para mascarar a existência de privilégios da branquitude e a persistência da discriminação.
Se a "parditude" for entendida como uma categoria neutra que dissolve as diferenças, ela corre o risco de esvaziar a luta antirracista, que busca reparação e reconhecimento para as populações historicamente oprimidas.
O Caso Camila Pitanga: A Verdade por trás da Fake News
O episódio envolvendo a atriz Camila Pitanga é um exemplo contundente de como a identidade racial é atacada no Brasil. Uma notícia falsa tentou deslegitimar a negritude de Camila, alegando que ela seria filha de um pai branco, insinuando uma traição de sua mãe, Vera Manhães.
Este caso, exemplificado em [inserir link para o vídeo], revela alguns pontos cruciais:
O racismo por leitura fenotípica: Apesar da miscigenação, Camila Pitanga é socialmente lida como mulher negra, e essa é sua autoidentificação. A tentativa de "embranquecê-la" através de uma mentira é um ato racista que tenta negar sua identidade e história.
A hipersexualização da mulher negra: A insinuação de traição por parte de sua mãe ecoa o estereótipo da mulher negra hipersexualizada e moralmente duvidosa, um legado cruel da escravidão.
A "parditude" não protege: A forma como a fake news se construiu sobre sua ancestralidade é uma evidência de que a negritude, mesmo em pessoas miscigenadas, é um alvo constante do racismo.
Pardo: Identidade, Consciência e Luta Antirracista
Ser pardo no Brasil, portanto, é mais do que uma classificação de cor. É um convite à consciência política e à autoidentificação.
Para aqueles que são fenotipicamente lidos como negros, declarar-se pardo e, ao mesmo tempo, reconhecer sua negritude é um ato de fortalecimento da luta. A união de pretos e pardos é crucial para combater um sistema que privilegia a branquitude.
Para aqueles que são socialmente lidos como brancos, mas se declaram pardos pela ancestralidade, é importante reconhecer os privilégios da branquitude e não usar a "parditude" para se desvincular da responsabilidade no combate ao racismo.
A miscigenação brasileira é uma realidade, mas ela não anula o racismo. Entender o que é ser pardo hoje significa reconhecer as complexidades da nossa formação, desconstruir mitos e fortalecer a luta por uma sociedade verdadeiramente antirracista, onde a identidade de cada um seja respeitada em sua plenitude.
Qual sua opinião sobre o assunto? Compartilhe sua perspectiva nos comentários.
Como usar a análise sobre a identidade parda na sua redação do Enem
Você se aprofundou na discussão sobre a categoria "pardo" no Brasil, o caso de Camila Pitanga e o pensamento de Lélia Gonzalez. Mas agora, a pergunta que fica é: como transformar toda essa teoria em uma nota 1000 na redação?
A chave é usar esses conceitos para sustentar seus argumentos, indo além da simples citação.
1. A Categoria "Pardo" como Lente de Análise
A análise que fizemos sobre a "parditude" pode ser o argumento central da sua redação. Use o conceito de fenótipo para argumentar que, no Brasil, a raça é lida a partir da aparência, e não da genealogia. Essa abordagem é ideal para temas sobre igualdade racial, pois mostra que o racismo é um problema estrutural que persiste mesmo na nossa sociedade miscigenada.
Tema: "Os desafios para promover a igualdade racial no Brasil."
Como usar: Use a crítica à noção de "parditude" como uma categoria neutra para mostrar que o racismo persiste porque a sociedade continua lendo corpos negros (mesmo miscigenados) como alvos de preconceito.
2. O Racismo à Brasileira: Lélia Gonzalez e a Denegação
A intelectual Lélia Gonzalez é um repertório de altíssimo nível. Seu conceito de racismo por denegação (ou racismo à brasileira) é perfeito para temas que abordam a persistência do preconceito.
Tema: "A persistência do preconceito e da discriminação na sociedade brasileira."
Como usar: Argumente que o preconceito racial é um problema crônico, que se esconde sob a máscara do mito da democracia racial. A "parditude" como um conceito unificador pode ser usada para ilustrar como o racismo é negado, dificultando a sua identificação e o seu combate.
3. O Caso de Camila Pitanga na Redação
O caso da atriz é um exemplo concreto e atual de como a identidade racial é atacada no ambiente digital. Ele pode ser usado para ilustrar argumentos sobre fake news, racismo ou mídia.
Tema: "O impacto da desinformação e das fake news na sociedade brasileira."
Como usar: Use o caso para ilustrar um argumento sobre a irresponsabilidade das plataformas digitais. A notícia falsa sobre a filiação de Camila Pitanga, que visava deslegitimar sua identidade negra, é um exemplo de como a desinformação pode ser usada como uma ferramenta de ataque pessoal e racial.
Modelo de Parágrafo: Da Teoria à Prática
Veja como você pode combinar tudo o que discutimos em um único parágrafo de desenvolvimento.
O Texto:
"A complexidade da identidade racial no Brasil, onde a raça é lida a partir do fenótipo e não da genealogia, é um dos principais desafios para o combate ao racismo. A categoria pardo, que à primeira vista poderia significar uma ausência de preconceito, pode ser vista como uma forma de racismo por denegação, conceito cunhado por Lélia Gonzalez, no qual a existência da discriminação é negada. Nesse contexto, a sociedade ignora as violências sofridas por pessoas miscigenadas que são lidas socialmente como negras, como demonstrou o caso da atriz Camila Pitanga. A atriz teve sua identidade racial atacada por uma fake news que tentou deslegitimar a sua negritude, revelando a perversidade de um sistema que atua para negar a identidade racial de um corpo, mesmo que ela seja a sua própria identidade."
Ao usar o artigo, você mostra que compreende o tema em sua profundidade, indo além do senso comum e dos clichês.
Referências:
NEGRITUDE EM LETRAS. O que a POLÊMICA sobre Camila Pitanga revela? Youtube, 31 ago. 2025. 1 vídeo (18 min, 36 s). Disponível em:
OLIVEIRA, Érico Andrade Marques de; SCHUCMAN, Lia Vainer. A noção de "parditude" é equivocada e representa regressão no debate racial do país. Folha de S.Paulo, São Paulo, 31 ago. 2025. Disponível em:

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